Um casamento no Nepal

O cenário no Nepal era de crise. Pós terremoto, no início do inverno e lidando com uma crise de combustível (leia mais sobre aqui), eu havia conseguido atravessar a fronteira da Índia para iniciar meu mochilão no país vizinho. Antes de vir, havia conversado com muitos turistas especulando sobre a ida para o Nepal: a maioria deles concluía que seria melhor não ir, afinal, a crise não afetava apenas os meios de transporte dos turistas e locais, mas também o transporte de alimentação e todo o funcionamento do país. O cenário era de incerteza.

Atravessei a fronteira esperando um dia longo, e procurei pelo ônibus que me levaria à minha cidade de destino, Chitwan. Sabia que em um dia comum já seria difícil, pois o fluxo naquela direção não era tão intenso (e turístico) como para Pokhara ou Catmandu. Troquei de ônibus algumas vezes e acabei respirando aliviada com a certeza de que chegaria no meu destino – ou quase: a ideia era ir para uma fazenda orgânica nas proximidades da cidade, e para isso seria necessário tomar mais uma condução local ao chegar em Chitwan.

Ao meu lado, uma menina nepalesa, que parecia ter a minha idade. Ela havia me auxiliado a encontrar o ônibus certo e acabamos sentando juntas. A viagem, que daquele ponto duraria umas quatro horas, foi confortável: trocando ideia eventualmente, alguns silêncios amigáveis, observando a vista pela janela (mesmo tendo acabado de cruzar a fronteira, as diferenças da Índia já me eram gritantes). A noite começava a cair e eu sabia que havia perdido o último ônibus que poderia me levar à fazenda, onde trabalharia como voluntária em troca de estadia e alimentação gratuitas. Comento com a menina que precisaria encontrar um lugar para dormir esta noite, e depois de pensar por alguns instantes, ela diz que posso ficar na casa da tia dela, que estava indo visitar. Me animo com a possibilidade e, enquanto ela liga para sua família para saber se seria possível, eu entro naquele estado de plenitude e alegria genuína de saber que aquela vivência estava sendo proporcionada por uma viagem; por um estado de abertura ao mundo; por estar sozinha a tantos milhares de quilômetros de casa.

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Adiantando a história: com os recém casados, na festa de casamento.

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Uma experiência com Vipassana no Nepal

Vipassana é uma técnica de meditação antiga, não religiosa, ensinada há mais de 2500 anos. Foi sistematizada por Goenka, um praticante do Myanmar que se mudou para a Índia. Ele criou os cursos dessa vertente de meditação da forma que são conhecidos, e a partir disso foi possível que a técnica se disseminasse também pelo ocidente. Vipassana significa ver as coisas como realmente são, e toda a técnica meditativa ensinada pretende te levar nessa direção.

Hoje em dia, a lista de países com um centro de Vipassana é extensa. Muitos viajantes se atraem por participar de um curso, talvez por viajar ser um momento em que estamos muito abertos e podemos dedicar um tempo a nós mesmos, da forma que for. Às vezes, encontrar 10 dias quando você está em casa sentado no sofá, ou trabalhando 40h por semana, parece difícil… no movimento constante de viajar, nos permitimos. Durante minha passagem pela Ásia conheci muitas pessoas que haviam participado ou iam participar em breve de um dos cursos do Goenka. Pessoas que viajam por um longo tempo normalmente tem um próposito, um motivo para terem deixado suas vidas para trás. Elas buscam algo. Quando você viaja por si, a jornada é interna: a viagem apenas o estimula e o auxilia a ir além nessa busca por autoconhecimento. Pouco similar com a meditação, não?!
Busque o centro mais próximo de você – ou de sua futura viagem.

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Já que não tenho fotos do centro onde fiquei, vai essa, que foi tirada em Pai (Tailândia)

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Viajando no Nepal: crise, pós terremoto e inverno

Dezembro de 2015 em Rishikesh, na Índia. Começava a me preparar para deixar a Índia e seguir rumo, por terra, ao Nepal. As informações que chegavam aos meus ouvidos sobre a situação do país pós terremoto (ocorrido em abril do mesmo ano) eram divergentes, então eu decidi que iria checar com meus próprios olhos. No quarto ao lado do meu, um casal de Colombianos tinha o mesmo plano, mas ainda um tanto quanto indecisos: a crise de combustível estava dificultando muito o trânsito no país, diziam eles. Nem sabiam se havia como chegar da fronteira até as principais cidades.

Não era a primeira vez que ouvia sobre a crise. O governo nepalês aprovou uma nova constituição – que de acordo com os indianos, era prejudicial para eles. Em setembro de 2015, a Índia deixou de enviar combustível pela fronteira, e o Nepal, que depende fortemente do país vizinho para ter combustível, não tinha outra solução além de resistir.

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