Como as relações abertas arruinaram minha vida amorosa

Foi em 2013. Eu novinha, acabava de entrar na universidade para cursar Psicologia e estava naquele marcante momento de (des)construção do mundo ao meu redor, buscando me posicionar como ser humano nessa sociedade. Em um encontro estudantil, conheci um cara: alguns anos mais velho, muito querido, muito gato – e que vivia há mais de 1000km de distância.

É que desde que começamos a conversar, o santo bateu forte. A forma como eu via o mundo, a maneira como ele queria viver o mundo. Falamos muito abertamente sobre relacionamentos, sobre amor, sobre sexo;

acabamos coincidindo na crença de que a monogamia era um caminho, mas por ser imposto socialmente como o único caminho possível, as outras infinitas possibilidades eram deixadas de lado. 

Ele se encantou, e eu também. O que era pra ser nada mais que um final de semana divertido se transformou em um relacionamento de dois anos.


A lógica do nosso primeiro encontro se manteve, e fomos muito fiéis ao que acreditávamos. Os dois, pela primeira vez, vivendo um relacionamento… livre. Uma relação com muita liberdade (faça o que quiser com quem quiser, no nosso caso), construída aos poucos com amor e responsabilidade afetiva. A cada dia que passava, a gente conhecia um pouco mais profundamente nossos limites (quanto eu quero saber sobre todo o resto da vida afetiva-sexual dele??) e nossos sentimentos.


A jornada de construir conjuntamente uma relação romântica que foge do que nos é ensinado desde sempre requer muita confiança e autoconhecimento. Autoconhecimento porque eu começo a me deparar com o mais feio de mim, aprendendo a lidar com isso – ciúmes, ego, necessidade de provar a mim mesma – ao mesmo tempo em que conheço cada vez mais a minha verdade.


Veja bem, eu nunca quis ter uma relação aberta por uma busca de liberdade sexual; quis ter uma relação aberta porque acreditava que poderia amar mais de uma pessoa ao mesmo tempo, que o meu sentimento por uma não mudava o que eu sentia por outra. 

Eu queria poder me entregar aos meus sentimentos, fossem eles quais fossem. 

E durante o meu processo, eu fui comprovando minha própria teoria: fui percebendo que, se a pessoa com quem me relaciono também pode estar com outras pessoas, o único motivo para ela seguir comigo é amor. Não é apego, não é insegurança e nem medo de ficar sozinho e não encontrar outra pessoa. Essa perspectiva me encantou.


Não digo que esse relacionamento foi uma construção fácil. Quando eu me apaixonei por outro, nossa relação balançou – mas a gente segurou essa barra juntos. Se em um fim de semana ele deixava de me responder no whatsapp por um longo período, eu começava a noiar; pensar com quem ele estava e o que ele fazia (aí eu entrava com um checklist. Ok, ele pode estar com outra pessoa. Isso significa que ele deixou de me amar? Não. Isso significa que ele vai me deixar? Não. Isso significa que eu sou menos que qualquer pessoa? Não.) Eu aprendi a racionalizar aqueles sentimentos mais irracionais, investigando a maneira como eu me sentia, buscando o por quê, e assim passando a lidar de uma maneira muito mais tranquila com eles. Ao invés de morrer de ciúmes, passei a admirar outras mulheres com as quais eu sabia que ele se relacionava. Deixei de ver outras mulheres como competição (algo que já vem embutido na nossa socialização nesse mundo machista). Aprendi muito.

Os anos se passaram e esse relacionamento já não está presente na minha vida. A maneira como esse período da minha vida me moldou, porém, continua. Eu sigo sendo uma pessoa que quase não tem ciúmes. Eu sigo não tendo problemas imaginando um companheiro com outra pessoa. Eu sigo não entendendo relacionamentos nos quais seja necessário dar satisfação, dizer com quem vai ou a que hora chega (seja monogâmico ou não). Eu já entendi que sou uma pessoa que precisa de espaço.


Hoje, quando eu conheço uma pessoa que me interessa, eu logo dou um jeito de falar sobre minha forma de me relacionar. É como se eu estivesse me desculpando: 

“olha, eu sou assim, viu? Não adianta me querer de outro jeito. Faz parte de mim.” 

E o que acontece é que as pessoas aceitam. Mesmo que elas não vivam assim, que elas não tenham essa experiência, elas te aceitam por completo.

É lindo demais essa entrega.

Mas pode ser muito prejudicial.

Eu encontrei um caminho profundo nos meus sentimentos e emoções nesse vale dos relacionamentos abertos, mas nem todo mundo encontra. Insegurança, ciúmes, problemas com a auto estima. Tudo isso pode vir de brinde (e, se você já viveu uma relação mais libertária, tenho certeza que se identifica com isso – pelo seu lado ou pelo lado do seu parceiro). Não é fácil e definitivamente não é pra todo mundo.


Então eu comecei a questionar que porra que eu tô fazendo com a minha vida amorosa. Porque mais de uma vez eu vi uma pessoa concordar em entrar nesse louco barco comigo, simplesmente porque estava se entregando ao sentimento que tinha por mim. E isso causava sofrimento.


Eu causava sofrimento??


Sei que minha posição é muito cômoda para dizer, mas ver a pessoa que eu amo sofrendo também me genera sofrimento. Me perguntei, então, se estava cumprindo com os propósitos que me fizeram querer me relacionar assim inicialmente. E a chocante verdade foi que, enquanto eu me justificava pela entrega que queria ter à fluidez dos meus sentimentos, entregar era tudo que eu não estava fazendo. Sim, eu me permitia viver muitas coisas e aprender com as pessoas que cruzavam meu caminho. 

Mas não me permitia estar 100% presente em uma relação. Não estava entregando meu sentimento com a profundidade que podia.


Veja bem, eu viajo muito. Desde os meus 15 anos, todos os meus relacionamentos terminaram, de uma maneira ou outra, devido a uma viagem: ou porque eu fui, ou porque eu voltei e as coisas já não eram as mesmas. Eu já me acostumei a ter que ir e deixar gente amada pra trás – sempre com a esperança de que seja possível encontrar um caminho juntos, mas até hoje sem ter concretizado. Eu me condicionei a aceitar que todo relacionamento que eu começo no Brasil já tem data de validade. Vai terminar. E isso torna muito mais fácil todo esse processo: de não ter algo (alguém?) que te prenda, de seguir sendo a liberdade flutuando pelo planeta terra. 

Antes de me mudar pro México eu conheci alguém. Um mês antes de deixar minha cidade, meus queridos – um mês antes eu me apaixonei perdidamente. Vivi um mês intenso, em uma relação aberta, claro. Meus pais me perguntavam: por que tu tá fazendo isso com esse guri faltando tão pouco pra viajar?!


Pois é. Um tapa na cara, foi. Eu não acho que teria me permitido viver essa relação com tanta intensidade se eu não soubesse que estava por ir embora. Eu me entreguei, de corpo e alma, sabendo que essa entrega tinha prazo pra acabar. 

E percebi que minha justificativa inicial, a possibilidade de entrega em um relacionamento aberto, era justamente do que eu fugia. Eu fugia da responsabilidade, me permitindo viver sentimentos lindos, porém de maneira superficial. 

Foi aí que eu percebi que, com todas as minhas forças, eu queria ser monogâmica. Me entregar a um relacionamento, ver tudo que se pode construir a partir disso. Sem desculpas. Sem envolver a pessoas em um ciclo doloroso só porque elas gostam de mim de alguma maneira; sem choques de paradigma com a pessoa que eu amo. Sem deixar de viver por completo um sentimento lindo, só pela possibilidade de nascer uma outra emoção com outra pessoa (muito obrigada, porém não pretendo colecionar corações na gaveta da minha mesa de cabeceira).


Só que é muito difícil deixar esse ciclo. Da mesma maneira que é difícil deixar de ser monogâmico, voltar a ser parece uma tortura. Eu não consigo mais ver como errado a atração que posso sentir por outra pessoa; eu não consigo colocar limites nas minhas interações sociais (se uma pessoa me convida pra almoçar, só eu e ela, é um encontro?? Eu estou dando espaço pra algo acontecer??) e nem entender as intenções de todas as pessoas ao meu redor (talvez porque isso não esteja definido previamente de maneira concreta, nunca?). E com isso vem a culpa – por não conseguir cumprir com uma expectativa, por não conseguir regressar a um padrão de comportamento já instituído.


Foi assim que os relacionamentos abertos arruinaram minha vida amorosa – só porque me fizeram perceber a complexidade de se relacionar em um mundo que desde um princípio te ensina o que é permitido ou não. Por toda a desconstrução e o contato que tive com a verdade dos meus sentimentos (e não com o que eu acho que deveria estar sentindo), um muito obrigado a quem construiu essa jornada comigo. A quem se machucou no processo, cá estamos nós: juntando cacos e aprendendo a se conhecer um pouco melhor para descobrir o caminho – não um caminho certo, universal, mas um que funcione pra mim e pra ti, juntos.


Foto do Gabriel Machado Paz – que apaixona com sua forma de olhar o mundo. Instagram @gabompaz

Julia segue buscando relações com liberdade, com espaço pessoal, com companheirismo acima de qualquer coisa – só que dessa vez, transformando uma relação monogâmica em um espaço livre. Julia segue incentivando a entrega – e, talvez em passos de tartaruga, mas sempre adiante – busca também se aprofundar nessa jornada.

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9 comentários sobre “Como as relações abertas arruinaram minha vida amorosa

    • flahas disse:

      Amiga. Não arruinaram. Talvez o título mostre o contrário. Eles te deixaram mais experiente e mostraram que a monogamia como regra é hipocrisia que beneficia geralmente os homens.

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      • viajeporsiblog disse:

        Sei que arruinaram é uma palavra forte, afinal aprendi muchíssimo com essa vivência. O sentimento de “arruinaram” vem nesse momento em que tu já nao sabe mais como seguir e precisa encontrar um novo caminho…

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  1. Pauan disse:

    Não seria o caso de talvez aceitar a efemeridade das relações amorosas?
    Esperar que elas “sejam eternas enquanto durem”, mas sabendo que elas tem uma duração e que não por causa disso elas são menos preciosas. Por quê amor tem que terminar com “e eles viveram felizes para sempre”?
    Escrevo isso aqui, mas na verdade acho que estou dizendo isso pra mim mesmo ja que também estou nessa jornada de entender como funciona as relações amorosas pra mim.

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    • viajeporsiblog disse:

      Interessante tu trazer esse ponto, porque de verdade escrevendo esse texto eu nem pensava cerca da duração de uma relação, nem pensava em querer que elas “sejam eternas” ou “vivam felizes para sempre”; mas exatamente a intensidade que elas podem ter enquanto duram, ou a intensidade que a gente permite que elas adquiram.
      Que continuemos refletindo sobre nossos processos e nossas relações a cada dia! Obrigada pelo comentário, Pauan 🙂

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  2. cintiamsp disse:

    Acho que o mais bonito na sua história é que, mesmo existindo esse conflito em q vc busca entender o que vai funcionar de fato pra ti atualmente, vc conseguiu aprender o que todos deveriam aprender (inclusive é minha busca): não deixar o ego tomar a frente, não ter este sentimento de posse em relação ao parceiro… Eu acredito num amor livre, mesmo sendo monogâmica por essência, no sentido que vc mesma falou, só fica a nosso lado quem nos ama… Não adianta a gente tentar controlar o outro, isso acaba nos controlando e impedindo de viver histórias lindas… Duas pessoas podem ser livres e decidirem caminhar juntas enquanto for possível… E isso exige maturidade demais de ambos pra saber até onde ta funcionando e quando não ta mais… Seu texto, sua experiência, traz muita reflexão! Obrigada por compartilhar e espero que seu coraçãozinho encontre as respostas que anseia ♡

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  3. Alika Finotti disse:

    O palheiro aumentou muito, mas o número de agulhas nem tanto. Saga eterna do garimpo de gemas preciosas de amizades e amores, paixões mais e menos conciliáveis, casamentos mais e menos duradouros. Não tema tanto causar sofrimento, o mundo precisa de seus cascudos e beliscões também, homens atentos irão agradecer por uma eventual cólica masculina em nome da experiência de experimenta-la. E, a lei maior, a Lei da Recíproca, rege o restante, onde podemos acompanhar passo a passo a natureza e qualidade de nossas interações, bem sucedidas ou não. Gratidão pelo compartilhar!

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  4. onmymode disse:

    Julia,

    Parabéns pela sua clareza, pelo ponto de vista e por compartilhar uma crítica tão bem emabasada.

    Eu também passei por um processo semelhante quando tive um relacionamento de 3 anos com um cara de SP, enquanto eu estava em Porto Alegre. Estou há 9 meses na Itália e o que mais tenho aprendido é sobre relacionamentos, apego, desejo e amor genuíno, principalmente o meu…comigo mesma hehe. É incrível como sair do contexto é importante para rever nossos conceitos. Eu também me sinto sempre em trânsito e penso que vai ser difícil encontrar alguém que compreenda (e apoie) isso, mas como dizem por aí que “a diferença entre o veneno e o remédio é dose”, viajar tem sido o melhor remédio, ao menos por enquanto. Vamos em frente, enfrente. Abraço

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