Sobre ser mulher viajando sozinha

Quando eu decidi ir pra Índia sozinha, com 19 anos, parece que o mundo ao meu redor parou e respirou fundo por um instante, hesitando antes de reagir. Apesar de alguns “que incrível, Ju!”, a maioria das respostas era de medo. Da impossibilidade de eu estar fazendo isso sendo mulher. De ameaça, porque ouvi de muitas bocas tudo de ruim que poderia acontecer comigo (e a lista não é pequena). E nessa hora eu fui a pessoa a respirar fundo, hesitante.

Ter receio é uma resposta natural. Por mais convicta que você esteja, quando o mundo inteiro ao teu redor diz que não é possível, você começa a questionar se não sonhou alto demais, longe demais – se o risco não é demasiado grande. Precisei buscar subsídios para me certificar de que a minha loucura não estava assim tão fora da curva: conversei com algumas mulheres que haviam mochilado sozinhas por esses mesmos lugares que eu queria ir; foi o suficiente para eu saber que sim, eu podia. E então eu fui.

Ter receio é uma resposta natural. Por mais convicta que você esteja, quando o mundo inteiro ao teu redor diz que não é possível, você começa a questionar se não sonhou alto demais, longe demais – se o risco não é demasiado grande.

Depois de alguns meses viajando, começou a me incomodar o fato de eu estar mochilando pela Ásia – tão livre, tão forte, tão independente – e olhar ao meu redor para ver viajantes, em sua maioria, homens. O mesmo passou em Cuba. O mesmo passa no México. Não é que mulheres não viajem, porque sim, nos encontramos por aí em grupos. Mas elas não costumam viajar sozinhas. Quando, na Índia, mulheres de todas as idades começaram a me procurar nas redes sociais para perguntar como eu havia feito (como, afinal, eu tinha ido sozinha pra Índia?), eu percebi que meu papel era simplesmente ser canal: dar a mão para que outras mulheres possam estar onde eu estou, porque unidas vamos mais longe. Nunca foi tão claro para mim o papel da empatia e da sororidade.

A estrutura nos oprime. Em um mundo feito por homens e para homens, a sociedade quer te deixar quietinha em casa. E nós ficamos. Escutamos de todos ao nosso redor (e mesmo os bem intencionados, que na ânsia por proteger acabam reproduzindo um lugar-comum de quem nunca esteve lá) que nos arriscamos demasiado, que melhor esperar por um amigo que possa nos acompanhar.

Não espere por esse amigo. Se a sua vontade é de ir sozinha – vá. Não quer dizer que vai ser fácil. Quer dizer que você vai estar, a cada dia, descobrindo um canto mais profundo dentro de si mesma. Vai estar descobrindo que aquela outra mochileira que viaja sozinha, mulher forte e independente, é tudo isso: mas que todas essas qualidades também estão dentro de você – apenas adormecidas por essa sociedade que te criou dizendo que não era possível.

Vai estar descobrindo que aquela outra mochileira que viaja sozinha, mulher forte e independente, é tudo isso: mas que todas essas qualidades também estão dentro de você – apenas adormecidas por essa sociedade que te criou dizendo que não era possível.

Viajar é um constante trabalho de autoconhecimento, de autocuidado, de libertação. E no momento em que você coloca os pés pela primeira vez nesse caminho, não há retorno à docilidade. Somos fortes, somos independentes, somos livres – não uma de nós, como “a escolhida”, mas todas nós, como irmãs.

Que possamos sempre servir de canal para que cada vez mais mulheres possam realizar seus sonhos pelo mundo – porque ainda que o todos tentem nos convencer de que não, temos tudo que é necessário dentro de nós.

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Vang Vieng, Laos.

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6 comentários sobre “Sobre ser mulher viajando sozinha

  1. Ana Luisa disse:

    Oi Julia,

    sou amiga da Laura e ela me apresentou teu blog. Já tinha lido alguns textos teus e gosto muito de todos. Agora em junho, vou viajar sozinha num intercâmbio de trabalho. Não é um mochilão, tô indo com o apoio de uma organização, mas estarei viajando sozinha.

    E me identifiquei muito com o que tu escreveu, em relação ao medo, à insegurança, a ouvir tudo de ruim que pode me acontecer. E te ler e me aproximar da tua experiência tá sendo um grande apoio nesse momento. Por isso, queria te parabenizar e, sobretudo, te agradecer. Te agradeço por estar me dando a mão e me ajudando a chegar no meu destino.

    Um abraço (e um feliz dia da mulher pra gente),

    Ana Luisa.

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    • viajeporsiblog disse:

      Ana, teu comentário me deixa muito plena. Esse é o sentido de eu escrever e de eu ter esse blog em primeiro lugar. Fico MUITO contente com as tuas palavras e me sinto mega recompensada ❤ boa sorte na tua viagem (seja ela como for) e qualquer coisa que precisar, tamo aqui!

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  2. Sarah disse:

    Oi Julia,
    Eu tenho 19 anos e viajei sozinha pela primeira vez no ano passado. Tudo o que você falou é a mais pura verdade. O medo (mais por parte dos outros que meu) me fez pensar muito. Mas quando finalmente damos o primeiro passo em direção à liberdade, de repente tudo se armoniza, tudo da certo. É uma verdadeira viajem ao nosso interior, estar sozinha não é estar solitária. Vivemos num mundo onde esta instaurada a ideia que nós, mulheres, temos que estar acompanhadas de alguma figura masculina. Essa viagem me mostrou que a melhor companhia sou eu mesma. Além das experiências de conhecer outras culturas, conheci mais a mim mesma. Descobri que não existe o sabor de pizza “tanto faz”, porque no final, tinha que haver uma escolha. E isso é incrível. Muito obrigada pelo seu texto e um feliz dia da mulher, porque só nós sabemos a maravilha que é ser uma.
    Sarah

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    • viajeporsiblog disse:

      Perfeito Sarah! Nos permitir essa jornada pra dentro, essa mirada mais pra nós mesmas, é muito lindo. Sinceramente, que bom que pudemos viver coisas tão profundas tão cedo na vida 🙂
      Valeu pelo comentário, com o qual eu também super me identifico!
      Um beijo, querida

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  3. Cátia disse:

    Hola,
    Chamo-me Cátia e eu e uma amiga estamos a pensar fazer formação na India de Yoga mas realmente temos pouco dinheiro. Gostaríamos de saber um pouco mais será que podemos trocar emails?
    Muito Obrigada

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