Ser latinoamericana viajando em Cuba

Chegando ao fim da minha jornada de 18 dias por Cuba, chego à Havana para os últimos dias no país. Não sou grande fã de capitais, terras-de-ninguém onde, mais do que em qualquer lugar, parece que o jogo tem suas próprias regras – o melhor e o pior de um povo e de uma cultura são escrachados em toda esquina, o que é possível constatar em  alguns minutos observando para fora de qualquer janela.

Lendo o mundo através desse paradigma um pouco dramático (admito) do que é estar em uma capital, descasco um abacaxi com uma faca muito pouco afiada que quase me dá vontade de comê-lo com espinhos e tudo. A dona do hostel me chama, interrompendo meus devaneios, pedindo ajuda para traduzir informações à uma gringa que acabou de chegar e não fala uma palavra de espanhol. Deixo meu tortuoso trabalho de fatiar a fruta, um tanto quanto agradecida, para encontrar uma menina desamparada e sozinha. Conheço bem a figura: sendo eu mesma uma mulher jovem que viaja sola, já cruzei com muitas outras que precisavam de um ombro amigo em início de viagem, ou simplesmente alguém que dissesse que, por mais que as coisas não estejam dando muito certo nesse momento, elas vão melhorar.A situação começa a se desenrolar em frente aos meus olhos enquanto ouço duas versões que se complementam: a dona do hostel me diz que o cubano que está com a estrangeira não pode circular pelo hostel, mas que há uma cama onde ela pode dormir. Enfatiza que conhece bem aquele homem e ele só quer tirar dinheiro dela, dar bebidas alcoólicas e se aproveitar – ele trabalha com isso, os conhecidos “jiñeteros” de Cuba.

Fico um pouco desconcertada com a tarefa de traduzir essa mensagem, pensando que o cubano talvez tenha alguma relação próxima com ela, não querendo ofender ninguém – o que logo cai por terra conforme a inglesa me conta que ele ontem mentiu não haver camas disponíveis no hostel e a levou para outro lugar (certamente comissionado) onde se cobrava 3x mais. Além do mais, havia dito para a dona do hostel que não a trouxera na noite passada pois ela havia bebido demais e não estava em condições de caminhar, coisa que a menina logo desmente.

Sento com ela para conversar, dizendo que havia sido apenas uma experiência ruim, que Cuba era um país incrível para se conhecer; que no hostel ela logo conheceria outras pessoas e não se sentiria mais solitária. Nesse momento chega uma estadunidense que também viaja sozinha e me auxilia na tarefa de melhorar o ânimo da inglesa. Voltando à minha tarefa de descascar o abacaxi (meu deus, quanto tempo isso pode levar?!), escuto conforme surgem diferentes histórias sobre como perderam dinheiro e foram enganadas por cubanos que cobravam a mais, mentiam sobre locais e inventavam festivais de salsa oferecendo um tour particular (que consistia exatamente em uma volta ao redor da quadra e 5 dólares a menos na sua carteira).

Confesso que tudo isso não me parece improvável: antes de vir ao país minhas pesquisas por relatos de mochileiros avisavam que era necessário ter cuidado com os cubanos, nem sempre tão bem intencionados. Mas ainda assim me espanto com o quão distantes estão esses relatos da minha realidade, da minha vivência, da experiência que tive pelo país.

Claro, eu nunca fazia tours particulares porque fazê-lo por conta própria era sempre mais barato.

Claro, eu nunca aceitava o preço inicial sugerido por um taxista, porque afinal nem teria condições de pagá-lo.

Claro, eu não sou americana e nem inglesa.

E aí algo me atinge com clareza.

Eu sou latinoamericana.

Minha realidade não é a mesma dessas meninas que compartilham agora sobre a mesa de jantar suas lástimas e erros; as horas que trabalho para ganhar o que elas ganham são extensas, a moeda em que me pagam não tem tanto valor quanto a delas, eu penso bem antes de gastar cada dólar extra sabendo que ao final isso pode me custar alguns dias de viagem.

Eu sou latinoamericana.

Eu não vou confiar imediatamente em um cara qualquer que me vê com cara de perdida na rua e diz que sabe onde me levar (porque na verdade, mesmo estando perdida, meu rosto não vai demonstrá-lo: sigo andando com a tranquilidade de quem vive nessas ruas até que me oriente). Eu não vou aceitar pagar um drink para um cubano muy amigo que acabei de conhecer porque sei que provavelmente vão se tornar 10, todos na minha conta.

Eu cresci em um país lindo, mas perigoso. Acostumada a cuidar dos meus pertences nas ruas, estando ligeiramente atenta mesmo quando relaxada na minha própria cidade (Porto Alegre me ensinou bem). Por mais que lastime muito da forma como nossa vida se organiza (naturalizando a violência e o medo, por exemplo), todos esses fatores me constituíram como a pessoa que está aqui hoje e me prepararam para algumas peripécias mundo afora. Não: por mais que pudesse ter acontecido, eu não perdi nem uma moeda por ter sido enganada por um cubano, que afinal joga o mesmo jogo que eu.

A ideia de latinidade não passa batido em Cuba. Desde o pensamento do Che, que não dizia ser argentino, mas sim latinoamericano, aos cubanos que viviam em casas muito simples e nos hospedaram por uma noite (cobrando menos do que o normal ao reconhecer que a economia de nosso país também não estava bem nesse momento), ser latinoamericano em Cuba é ter um convite para conhecer o país em um estado mais puro. Podendo conversar com os cubanos em sua língua materna, trocando figurinhas sobre política, vida cotidiana, violência e seja mais o que for, algo nos aproxima: esse algo é a América latina.

Do instante em que me oferecem um preço absurdo por uma viagem dentro do país (que vejo outros turistas gringos aceitarem), em inglês, ao momento em que percebem que não apenas falo espanhol como também sou brasileira, muito muda. Sim, talvez eu tenha “perdido algo” por não ter feito um tour à cavalo em Viñales para conhecer as plantações de tabaco; talvez meus pés doessem um pouco menos se eu pagasse por um táxi ao invés de caminhar com a mochila nas costas sempre que viável. Porém, me foi possível conhecer uma realidade que não é a minha, mas poderia ser; em um rosto desconhecido que me ensina onde pegar um caminhão para seguir viagem, porque sabe que não estou disposta a pagar mais que isso, o reconhecimento dessa irmandade é mútuo.

Saio da mesa de jantar compartilhando as informações que considero poder ser úteis, recheando com outra perspectiva o “guia de sobrevivência em Cuba” que a norte americana faz para a inglesa. Termino de cortar meu abacaxi, grata por também viver em um país tropical. Mais tarde, quando saem para Havana Vieja, elas dividem um táxi enquanto eu aperto meus cadarços.

É que, afinal, eu sou latinoamericana…

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Arte do Parque del Tren Blindado (Santa Clara, Cuba)

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2 comentários sobre “Ser latinoamericana viajando em Cuba

  1. Marcio Almeida disse:

    Que maravilha de texto, Julia!

    Você tem o dom de transformar suas experiências em palavras, de tal forma, que me sinto vivendo o que você viveu. Estou lendo um texto após o outro. Cheguei aqui porque buscava informações sobre yoga na India, mas já estou lendo sobre Cuba, hahaha. Apaixonante sua escrita. Grato por compartilhar.

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