Uma viagem pelo norte da Argentina

Para viajar em julho, eu tinha dois desejos: ir para algum lugar que me permitisse colocar a mochila nas costas fluindo pelos caminhos desconhecidos + poder praticar meu espanhol (que, até esse momento, era mais ou menos igual a nada). Foi conversando com uma amiga sobre lugares legais de se conhecer que ouvi falar pela primeira vez do que há no norte da Argentina.

Aposto que já te disseram que Buenos Aires é uma cidade incrível, riquíssima em cultura.
Aposto que você já pensou em ir a Mendoza passear por vinícolas e degustar o produto local.
Aposto também que a Patagônia – e toda aquela neve de Bariloche e arredores – já figurou na sua lista de destinos desejados.
Mas acho que tem uma grande possibilidade de você nunca ter ouvido falar que, próximo à Bolívia, diferente das montanhas verdejantes ou cobertas de neve, há deserto; há um povo que, fisicamente, segundo nossos pré conceitos, “nem parece argentino”; há uma cultura extremamente distinta do que encontramos na capital ou no sul do país.

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Eu aposto que você nunca viu tantos cactus na vida quanto vai ver nessa viagem.

Divido com vocês meu roteiro e meus gastos de viagem pela província de Jujuy, no norte da Argentina, para que talvez sirva como base para a sua viagem. A escolha da ordem das cidades foi de acordo com a minha praticidade e lógica; pode ser tranquilamente invertida e remodelada.

Tilcara
Onde ficar: fiquei no Tilcara Hostel, que custava 150 pesos por noite em um quarto compartilhado.
Como chegar: de ônibus, a partir de outras cidades grandes como San Salvador de Jujuy, Salta ou até mesmo Buenos Aires.

Tilcara é o ponto de acesso para os vilarejos próximos e atrações da região; mesmo sendo uma cidade pequena, é a maior das visitadas nesse roteiro. É possível fazer de Tilcara uma base para realizar passeios nos lugares próximos durante o dia e voltar para dormir de noite; eu preferi sempre dormir no próprio vilarejo que estava visitando.

O vilarejo é bastante simpático e cheio de viajantes; a feirinha, que ocorre na praça próxima à igreja, é um passeio querido de se visitar (apesar de não ser o mais barato: Humahuaca e Purmamarca possuem feiras semelhantes com preços mais agradáveis), e as peñas (bares e restaurantes com músicas folclóricas ao vivo) que se espalham pela praça principal e acumulam longas filas são imperdíveis para conhecer essa cultura mais de perto.

Existem dois passeios distintos dentro da cidade: o Pucará, uma das ruínas dos povoados pré hispânicos da região, e a Garganta del Diablo.

Pucará
“Pucará”, no vocabulário quechua, significa forte ou fortaleza. Lá se encontra uma grande concentração de estruturas arqueológicas, parte das antigas casas, praças, tumbas e espaços cerimoniais que eram habitados pelo povoado do Pucará.
Além disso, por estar localizado em uma montanha, o lugar te entrega uma bela vista da região ao redor. Pode ser uma inspiração pra seguir a viagem 🙂
O preço é 30 pesos para estrangeiros e 15 para argentinos. Com alguma sorte ou manha, você paga 15 também.

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O Pucará. Construções dos povos antigos e montanhas ao redor (sempre!)

Garganta del Diablo
Para os que gostam de caminhar, é um passeio interessante. Subindo uma montanha, chega-se na garganta do diabo, uma formação rochosa distinta. Para entrar no “complexo”, é necessário pagar 15 pesos, que dão acesso também a uma cachoeira.
Interessante pela caminhada de 5km até chegar no local (e a paisagem que vai surgindo pelo caminho); a formação rochosa em si não me cativou tanto (um pouco anestesiada pela quantidade de rochas e montanhas que já havia visto, talvez?). Cabe a você decidir se vale uma visita!

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O caminho para chegar na Garganta do Diabo.

Iruya
Como chegar: de Tilcara, 100 pesos, saindo as 8 da manhã. O mesmo ônibus passa por Humahuaca, então é possível sair desse vilarejo vizinho.

 

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O vilarejo que surge no meio das montanhas: bem vindo a Iruya.

Imagine um ônibus passeando pela estrada. Você já está mais ou menos acostumado com o cenário: alguns cactus e cardones, montanhas, tudo bastante árido. De fundo, aquela musiquinha animada proferidas em um ritmo inacompanhável para a maioria dos que estão apenas tenteando no espanhol. Depois de, talvez, 1h de viagem, o ônibus sai da estrada principal e entra em um caminho paralelo, de chão batido. 50km para chegar em Iruya, diz a placa. Então o ônibus começa a subir. Se não for verão, é possível que possamos ver água congelada no chão. Subimos até chegar no ponto de divisa da fronteira entre as províncias de Salta e Jujuy, 4000 metros acima do nível do mar.
Depois disso, o trajeto passa a ser composto por subidas e descidas em uma estrada apertada (daquelas que, na hora de fazer as curvas, a parte da frente do ônibus sai pra fora do precipício e a roda tem uma folga de poucos centímetros). Você pensa: ufa, ainda bem que o motorista é experiente. Aos seus lados, o cenário de grandiosas montanhas não para de mudar – e mesmo que você já tenha conhecido todos os principais pontos da província de Jujuy, aqui você vê como tudo é completamente distinto do que já conheceu.
Depois de (quem sabe) 1h de viagem por essa estrada, você avista um vilarejo literalmente cravado no meio da montanha: algumas casinhas, um campo de futebol e uma igreja. Bem vindo à Iruya.

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A praça do vilarejo. Para referência, o mirador fica na montanha logo atrás da bandeira à direita…

Não há muito o que fazer no vilarejo em si: encontre um lugar para ficar (provavelmente na casa e hospedaria de uma família local, pagando entre 50 e 80 pesos a noite) e desbrave as caminhadas pela redondeza.

San Isidro
A rota de trekking mais conhecida a partir de Iruya é até San Isidro, que dura aproximadamente 6h para ir e voltar – tranquilo, com pausas. Você vai caminhando entre montanhas e costeando o rio em sua direção contrária: a paisagem é linda e possibilita bons momentos de paz e silêncio… só de vez em quando vai cruzar com outros caminhantes.

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O caminho à San Isidro é assim: do início ao fim, cercado pelas montanhas e seguindo o rio.

Mirador
Também vale visitar o mirador, mas para isso reserve um turno cheio: você vai atravessar a ponte, cruzar o vilarejo e subir – muito. Essa caminhada foi a mais cansativa das que fiz, mas também a mais recompensadora! Ver Iruya e as redondezas lá de cima é lindo.

 

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Cara de vitoriosa porque, meu bem, não vou mentir que foi fácil… (e Iruya é aquela coisinha lá embaixo)

Humahuaca
Como chegar: de Iruya, o ônibus custa 75 pesos.
Onde ficar: fiquei no Humahuaca Camping, que também possui quartos compartilhados, onde a cama sai por 70 pesos (já aviso que não é o lugar mais arrumadinho do mundo, e estou partindo do pressuposto que você não  se importa. Por aqui os viajantes costumam ser incríveis e, por favor, mira esse custo benefício…)

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No camping tem uma tirolesa – que no caso eu só utilizei pra compartilhar meu lanchinho de mate e doce de leite com uma hermana.

Se você decidiu conhecer a província de Jujuy, provavelmente Humahuaca foi um dos motivos: El Hornocal, também conhecido como “a montanha das 14 cores”, se localiza aqui. Como todos os outros vilarejos ao redor, possui uma feirinha de rua, e acredito que essa seja a maior de todas, se estendendo por diversas quadras ao redor da praça principal.

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Mesmo pra quem não gasta dinheiro com souvenirs e outras compras (tamo junto), vale a visita.

Cerro de las 14 colores – “El Hornocal”
Para chegar lá é preciso pegar um transporte, que custa entre 150 e 200 pesos e sai, normalmente, da ponte da cidade (ou pode ser combinado diretamente com o lugar onde você está hospedado). É comum que passageiros se sentem na caçamba dos carros, o que sinceramente é uma ótima opção: não há melhor maneira de ir observando a vista.
Os carros que levam até lá saem umas 3x por dia. Sugiro ir pela manhã, pois é quando tem menos gente visitando.

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É tipo o plano de fundo do Windows. Só que melhor.

Peñas Blancas
Uma montanha branca, um pouco afastada do centro, mas muito próxima do Humahuaca Camping. É possível subir na montanha e ter a vista da cidade e de (adivinha?) mais montanhas ao redor. Não considero um passeio indispensável.

Purmamarca
Como chegar: de ônibus, 41 pesos de Humahuaca.
Onde ficar: Don Heriberto (que também é o nome de um bar logo ao lado da hospedaria) oferece os quartos compartilhados mais baratos da cidade até então, por 100 pesos. Há campings ao redor com um preço melhor.

Nessa viagem, Purmamarca ganhou o prêmio de cidade que se vai embora pensando “bem que eu poderia ficar mais um pouco…”.

Cerro de las 7 colores
Esse, diferentemente de Humahuaca, não precisa de transporte para avisar: localizado no meio da cidade, se enxerga de qualquer lugar – além de dar aquela vibe cinematográfica ao local.

Cerro Morado
Uma caminhada para deixar a cidade para trás e subir a montanha buscando a melhor vista para o cerro de las 7 colores.

Camiño Colorados
Um caminho para subir as montanhas e avistar a paisagem ao redor.

Salinas Grandes
Não estamos na Bolívia (quase) e esse não é o Salar de Ayuni; em Purmamarca estão localizadas as Salinas Grandes. Eu quase deixei de conhecê-las porque os 250 pesos de deslocamento até o local me deixavam um pouco incerta das minhas chances de chegar de volta ao Brasil com o dinheiro que tinha (no fim deu tudo certo). Para quem não conhece paisagens similares, vale muito a visita!

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As salinas: minha habilidade fotográfica e minha câmera de celular certamente não fazem jus à realizade.

 


Nessa viagem pelo norte fiquei apenas na província de Jujuy, mas se o tempo lhe permite, pode ser interessante ir à Salta conhecer Cafayate e outras cidades da região.

Afinal, como eu chego lá? Eu iniciei minha viagem pela Argentina por Buenos Aires e Rosário, para depois subir ao norte – das duas cidades, há possibilidade de ônibus para Tilcara, que te poupa de encarar as cidades grandes do norte, San Salvador de Jujuy e Salta. A distância a ser percorrida é longa, então é hora de abrir a mão. Também existem aeroportos na região e, se você sai do Rio Grande do Sul e não quer conhecer a capital nesta viagem, a opção mais econômica é ir de Uruguaiana a Salta, trocando de ônibus em Corrientes.

Gastos totais, pra gente ter uma ideia, Ju? O máximo que gastei com acomodação nessa viagem foi 150 e o mínimo, 70. O transporte entre os vilarejos não é caro e é bastante caroneável (sendo rota para a Bolívia, há muitos caminhões no trajeto). Se você quer comer barato, empanadas e outras comidas típicas do norte argentino são encontradas nas ruas. Meu gasto total foi de aproximadamente 1500 reais, incluindo as passagens de ônibus (1) Porto Alegre – Buenos Aires, (2) Rosário – Tilcara e o retorno de (3) Salta – Porto Alegre (com muitas paradas, muita troca de condução e esperas gigantescas em rodoviárias). Citei esses trajetos aqui por serem os mais longos e mais caros da viagem; se você não passar por Buenos Aires seu orçamento será bastante diminuído.

Durante o tempo que viajei por lá – não sei se por sorte, coincidência, ou alinhamentos do universo para que meu plano de praticar espanhol fosse o mais certeiro possível – só conheci mochileiros argentinos, de todas as partes do país: eu era sempre a única gringa. Arrisco dizer que, apesar de ser um destino muito visitado, ele ainda não se popularizou com estrangeiros da forma como ocorreu no turismo interno. Uma boa chance de conhecer mais sobre o país como um todo!

Ficou alguma dúvida? Manda uma mensagem na página do facebook Viaje por si ou comenta por aqui que eu te ajudo como puder! No meu instagram, @landgrafjulia, tem mais fotos dessa viagem e de todas as outras.

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