Uma experiência com Vipassana no Nepal

Vipassana é uma técnica de meditação antiga, não religiosa, ensinada há mais de 2500 anos. Foi sistematizada por Goenka, um praticante do Myanmar que se mudou para a Índia. Ele criou os cursos dessa vertente de meditação da forma que são conhecidos, e a partir disso foi possível que a técnica se disseminasse também pelo ocidente. Vipassana significa ver as coisas como realmente são, e toda a técnica meditativa ensinada pretende te levar nessa direção.

Hoje em dia, a lista de países com um centro de Vipassana é extensa. Muitos viajantes se atraem por participar de um curso, talvez por viajar ser um momento em que estamos muito abertos e podemos dedicar um tempo a nós mesmos, da forma que for. Às vezes, encontrar 10 dias quando você está em casa sentado no sofá, ou trabalhando 40h por semana, parece difícil… no movimento constante de viajar, nos permitimos. Durante minha passagem pela Ásia conheci muitas pessoas que haviam participado ou iam participar em breve de um dos cursos do Goenka. Pessoas que viajam por um longo tempo normalmente tem um próposito, um motivo para terem deixado suas vidas para trás. Elas buscam algo. Quando você viaja por si, a jornada é interna: a viagem apenas o estimula e o auxilia a ir além nessa busca por autoconhecimento. Pouco similar com a meditação, não?!
Busque o centro mais próximo de você – ou de sua futura viagem.

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Já que não tenho fotos do centro onde fiquei, vai essa, que foi tirada em Pai (Tailândia)

“O ponto do Vipassana é descondicionar a mente para que se possa viver uma vida feliz. Uma vida cheia de amor, compaixão e boa vontade para todos.”
S. N. Goenka

Unindo o útil ao agradável (no caso, meu desejo anterior de participar de um curso de Vipassana + a disponibilidade por estar viajando por 5 meses e ter diversos centros espalhados pelos países que visitei), escolhi um centro no Nepal para me retirar e vivenciar essa experiência. É importante ressaltar que, seja onde for, o curso é todo gratuito. No último dia, você tem a possibilidade de deixar uma doação ao centro onde esteve, e essa doação permitirá que outras pessoas continuem a aprender com o Vipassana – seu curso, portanto, foi pago por praticantes que estiveram nesse mesmo lugar antes de você.

Os cursos de Vipassana duram 10 dias, e são conhecidos por sua característica básica do silêncio. O silêncio – ou qualquer outra forma de interação com os meditadores ao seu redor – é imprescindível e deve ser mantido, até que se oriente o contrário. A estrutura do retiro funciona de forma que qualquer um, mesmo sem experiência prévia com meditação, possa participar: as orientações são dadas de forma gradual para que cada passo da técnica vá sendo conscientizado até que esteja apto a praticar o Vipassana em si. Você é proibido de trazer consigo eletrônicos, livros, ou até mesmo um caderno; também não pode praticar yoga ou qualquer forma de exercício físico que possa distrair os outros. Ao adentrar o centro, você está concordando que não vai desistir e ir embora antes dos 10 dias, não importa o quão difícil seja. Essa rigidez do curso condiz com uma de suas premissas básicas, de que enquanto estiver no retiro, estará entregue a experimentar a prática como ela é. O Código de disciplina (não invente de participar sem fazer essa leitura antes) é rígido: por 10 dias, é pedido que você abdique de outras distrações, e se coloque 100% nisso (o que, por si só, já é um exercício de autoconhecimento profundo), deixando de lado qualquer outra técnica meditativa com a qual seja familiar. Depois que o curso terminar, claro, você é livre para continuar praticando em casa – ou não. Se não gostar da técnica, pode retornar à outras meditações que aprendeu em outros momentos da sua vida, ou continuar buscando o ideal para si.

É interessante pensar que todos os cursos de Vipassana, em qualquer lugar desse mundo gigante será ministrado da mesma forma. Os horários serão os mesmos, e inclusive as aulas serão as mesmas: no Nepal, ouvíamos áudios do Goenka (hoje falecido) ministrando cada prática, além de assistir vídeos dos ensinamentos dele.

“Remover antigos condicionamentos da mente e treiná-la para ser mais equânime com cada experiência é o primeiro passo para permitir que se experiencie a felicidade verdadeira.”
S. N. Goenka

Cronograma diário
04:00 Acordar
04:30 – 06:30 Meditação
06:30 – 08:00 Café da manhã leve
08:00 – 09:00 Meditação
09:00 – 11:00 Meditação
11:00 – 12:00 Almoço
12:00 – 13:00 Descanso e conversa com o professor
13:00 – 14:30 Meditação
14:30 – 15:30 Meditação
15:30 – 17:00 Meditação
17:00 – 18:00 Lanche e descanso
18:00 – 19:00 Meditação
19:00 – 20:15 Discurso do professor
20:15 – 21:00 Meditação
21:00 – 21:30 Questões ao professor
21:30 Repouso (luzes apagadas)

No primeiro dia, logo na chegada, homens e mulheres são separados. Você só verá as pessoas do sexo oposto no grande salão de meditação, porque os dormitórios e o refeitório são separados. Depois de entregar todos os seus pertences (passaporte, dinheiro, eletrônicos, livros, cadernos, canetas – a lista se estende), menos o que precisará usar nesses próximos dias (como itens de higiene pessoal e roupas), você conhecerá os aposentos que lhe servirão de casa pelos próximos 10 dias. No centro onde fiquei, o Dhamma Shringa (Katmandu, Nepal), os quartos eram salões enormes, com pequenas paredes dos lados e uma cortina em frente, formando um corredor. Cada um desses espaços era composto por duas camas – no meu caso, não havia ninguém na cama ao lado. Como o quarto era bastante aberto e integrado, fiz questão de informar à todas, no primeiro dia, que sou sonâmbula e falo dormindo, e que essa não era uma tentativa (ao menos não consciente) de quebrar o silêncio nobre!!!

Nesse primeiro momento, você vai conhecer as outras pessoas que estarão meditando ao seu lado. É uma oportunidade de saber o que os une naquele espaço, as expectativas individuais de cada um, porém sem formar vínculos muito sólidos: no dia seguinte, pela manhã, o silêncio será instituído e qualquer troca com o outro é indesejada.

No dia seguinte, considerado realmente o dia 1, um sino irá tocar as 4 da manhã (não, você não pode levar despertador): sinal de que é hora de levantar e iniciar o dia. Para os que tem mais dificuldade de sair da cama, cada quarto tem um ajudante voluntário (uma pessoa que já participou de um curso anteriormente e agora irá servir) que vai puxar seu pé caso você não acorde (ok, talvez ele faça isso mais sutilmente, mas o que importa é que ele te ajuda a sair da cama). A primeira sessão de meditação do dia inicia as 4:30, e é a partir daí que o silêncio nobre é instituído: pelos próximos 10 dias, sem conversar com seu vizinho de cama, sem contar piada, sem rir de besteira, sem companhia para conversar nas refeições. Você pode falar apenas para contatar os voluntários caso precise de algum auxílio, ou nos espaços de conversa com os professores.

Essa primeira sessão de meditação do dia dura 2h, até o café da manhã. Das 8 às 11h, ocorrem duas sessões, com um pequeno intervalo entre elas. Durante o período da tarde o esquema é o mesmo: várias sessões seguidas de meditação, entre elas você tem uns 5 minutos – delimitados por um sino – para caminhar e esticar as pernas. Você vai meditar sentado no chão o tempo inteiro, então esses momentos serão vitais para o seu corpo ocidental que não está acostumado a esta posição e vai sofrer com ela. Sinceramente, para mim a parte mais difícil do curso foi a dor física. Inicialmente eu até conseguia ficar sentada, mas quanto mais os dias passavam, mais eu sentia dor em um dos joelhos. Todos relatam dor nas costas, nas pernas, ou em qualquer parte do corpo que não tenha o alongamento ou a força necessárias para sustentar a postura. Você vai aprender a observar a sua dor e a impermanência dela; porque sim, ela passa.

Das 11 as 12h é hora do almoço, e no centro em que fiquei, a comida era maravilhosa. Típica nepalesa, mas diferente a cada dia, com porções sempre bem servidas. É normal que algumas pessoas passem mal nos primeiros dias e não consigam comer – todo seu sistema, seu corpo e mente, estão se acostumando a uma rotina completamente diferente do que você viveu até agora. Nada mais natural que os sintomas dessas mudanças se mostrem em seu corpo físico também.

Depois de comer e lavar seu prato, você tem 1h livre para tomar banho, lavar roupa, pegar um solzinho ou fazer qualquer outra coisa (menos dormir; você é orientado a dormir apenas de noite). Fiz meu retiro em dezembro de 2015, ou seja, no início do inverno… no Nepal. Nos Himalaya. Era muito frio, e o sistema de água simplesmente não aquecia. Banho gelado era a única opção. Sim, apenas adivinhe quem nunca matou tanto banho na vida quanto nesse momento. Importante ressaltar que você estará vivendo em instalações simples – lide com elas da melhor forma possível. Podendo fazer uma recomendação, eu diria: prefira o calor do que o frio…

Todas as sessões de meditação do dia são guiadas por áudio. Uma vez por dia, os meditadores serão chamados em pequenos grupos para conversar com um professor e esclarecer dúvidas. Ele vai perguntar como está sua prática, quais vem sendo suas dificuldades, e juntos vocês buscam um aprimoramento, um avanço. Essas conversas foram muito proveitosas para mim, sempre; esse professor é um praticante muito antigo de Vipassana, que se voluntaria a participar do curso, então a troca é potente.

De noite, depois da janta (que na verdade é um lanchinho de frutas e chá) às 19h, todos assistem a um vídeo do Goenka falando sobre o dia que passou, os objetivos, e explicando um pouco mais da teoria. A ideia é que aprendemos muito na prática, e isso é o essencial: recebemos de teoria apenas o necessário para embasar o que estamos fazendo, para que não se torne algo intelectualizado ao invés de prático. As 21:30 as luzes são apagadas e você cai na cama pronto para dormir.

No penúltimo dia, o Goenka começa a preparar todos os participantes para um retorno ao “mundo real”. Ele diz que, se o curso fosse apenas encerrado repentinamente, seria um choque grande demais para todos. Portanto, antes de o curso terminar, o silêncio é quebrado: no último dia, as sessões de meditação ainda ocorrem (com horários um pouco alterados), mas você conversa com quem esteve ao seu lado pelos últimos 10 dias sem poder abrir a boca; quem você viu, de canto de olho, sofrendo e resistindo, ou admirou em momentos de muita paz, quando quem pensava em desistir era você. Essa troca, essa conversa, enriquece muito o curso, porque ajuda não só a ter uma outra perspectiva, como também a perceber o que você vivenciou tão intensamente.

“A mente passa a maior parte do tempo perdida em fantasias e ilusões, aliviando experiências prazerosas ou desprazerosas e antecipando o futuro com ânsia ou medo. Enquanto perdidos em tais desejos ou aversões, nós não estamos conscientes do que está acontecendo no presente, o que estamos fazendo no presente.”
S. N. Goenka

Participar de um curso de Vipassana é incrível. É doloroso, física e psicologicamente. Você vai revirar tudo que tem em si, o que nunca é uma tarefa fácil. Vai reviver momentos difíceis de sua trajetória, mas dessa vez, com uma ferramenta que te possibilita passar por isso de outra maneira. Vai aprender sobre impermanência e equanimidade. É um exercício constante de superação, te mostra o quão forte você é. Certamente vai aprofundar sua prática pessoal de meditação, seja qual for seu objeto de concentração ou a teoria que você utilizar para meditar (mesmo que nunca mais pratique Vipassana na vida), e mais do que qualquer coisa, vai permitir um entendimento diferente de práticas contemplativas e da meditação em si. Você vai valorizar as coisas pequenas (no meu caso, o pôr do sol nas montanhas, naquele cor-de-rosa incrível, acontecendo de frente para o salão de práticas bem quando a última sessão de meditação do dia se encerrava. Aquele pôr do sol que, caso eu tivesse meu smartphone, eu talvez tivesse deixado passar…) e vai estar sensível e aberto ao mundo de outra forma: seus sentidos vão se aguçar, seus pensamentos vão se apresentar com clareza e você vai compreender padrões e condicionamentos seus, com a possibilidade de rompê-los.Terminei o último dia do curso com um sentimento profundo de compaixão, algo indescritível, que tomava meu corpo e o transbordava.

Algumas pessoas contam ter experiências extracorpóreas e visões. Vão te fazer, lendo esses relatos por aí, querer vivenciar isso também. Eu não vivi nada disso. Nada. Eu vivi no meu corpo, pura e simplesmente. Eu lidei comigo mesma de uma forma que nunca havia lidado antes. E, só por isso – mas muito além disso – a experiência já vale a pena.

** Dica: para conhecer mais sobre Vipassana, seu sistematizador e seu desenvolvimento, assista os documentários “Doing time, doing vipassana” (Índia) ou “The dhamma brothers” (EUA), que contam a experiência e o impacto de realizar os cursos dentro de prisões. **

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2 comentários sobre “Uma experiência com Vipassana no Nepal

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