Amritsar e o Golden Temple: dois dias de graça na Índia

Amritsar é uma cidade localizada no noroeste da Índia, no estado de Punjab. Ela é famosa pelo templo que lá se encontra: o Golden Temple, grande monumento da religião Sikh – é o centro do sikhismo no país.

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Claramente, a imagem de uma pessoa que não sabe posar na frente de monumentos.

A Índia é conhecida especialmente por ser um país de maioria hindu, mas diversas outras religiões coexistem (de forma não tão pacífica, muitas vezes) no mesmo território. Não há como negar que o país é fortemente religioso: seja muçulmano, hindu, sikh, cristão ou jainista, a grande probabilidade é que qualquer indiano se identifique com alguma delas. No tempo que estive no país, me propus a buscar informações sobre todas as religiões que se mostrassem abertas à minha presença, visitando templos e participando de cerimônias abertas.

O que me atraiu para Amritsar, além do templo mais famoso da religião sikh em si, foi a forma como a religião se estrutura para que todos e qualquer um possa ter acesso ao local e contato com seus ensinamentos. É possível ficar em Amritsar praticamente de graça e se envolver na cultura de uma forma bastante local: comida e alojamento são oferecidos para qualquer pessoa sem custo algum. Não é preciso ser religioso e a contribuição monetária, por forma de doação, é uma opção sua. A seguir, algumas dicas (baseadas na minha experiência) para aproveitar a cidade e tudo que ela oferece, buscando sempre a imersão cultural!

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O templo iluminado, durante a noite.

Chegando em Amritsar. Depois de uma viagem de trem do Rajastão até Amritsar, desembarco na estação de trem consciente de que posso chegar ao templo sem pagar um tuktuk. Ouvi falar que haviam ônibus amarelos organizados pelos sikhs que faziam o transporte da estação de trem até lá. Olhando ao redor e surpreendentemente encontrando diversos ônibus amarelos, começo a perguntar de janela em janela se esse era o transporte que eu procurava. Os motoristas, que pareciam confusos e animados pela presença gringa, não davam respostas conclusivas – mas um transeunte que ouviu a conversa acabou apontando para o lugar certo. Uma espécie de quiosque com uma fila gigante – confirmo na fila se aquele era meu lugar e fico esperando o ônibus chegar. Quando ele chega, parece carro de palhaço: a fila inteira vai entrando lentamente e se ajeitando lá dentro. Começo a duvidar que eu vá caber quando a minha vez chegar. Quanta ingenuidade! O homem sikh que organiza a fila parece bastante contente com minha presença e me incentiva a entrar (junto com minha mochila que ocupa o espaço de mais uma pessoa, provavelmente). Vou de pé, ouvindo enquanto todos recitam preces da saída da estação até a chegada ao templo, em uma viagem que durou qualquer coisa entre 30 minutos e duas horas (nessas circunstâncias, admito que talvez a noção de tempo não seja muito precisa).
Dica: o “quiosque” fica praticamente de frente para onde você desembarca do trem, no estacionamento – basta atravessar a muvuca que se encontra entre você e seu objetivo. Encontre uma fila gigante e é provavelmente o lugar que você procura.

Encontrando o alojamento. As informações prévias sobre o alojamento gratuito são difusas: alguns turistas haviam me dito que era necessário fazer uma reserva, outros diziam que era só chegar. Como na internet não consegui encontrar um lugar para fazer a reserva, resolvi tentar a sorte. Em frente ao lugar onde descemos do ônibus, há uma rua: do lado esquerdo, diversos prédios, do direito, a entrada para o templo. Não há nenhuma indicação de qual o prédio do alojamento, é necessário entrar e ir perguntando (muitas vezes ninguém fala inglês para te orientar, mas prometo que por sorte ou persistência você acaba encontrando). Entro em um prédio com um espaço interno gigante, onde indianos se enfileiravam para dormir no chão. A quantidade de pessoas é enorme (e nesse momento começa a fervilhar aquela emoção de “olha que maravilha a indiada que eu me meti!!! Que experiência incrível!!!” – leia isso sem nenhum tom de ironia, por favor, que é sincero), só vendo para crer. Entro na fila para uma espécie de cadastro, até que um homem me leva ao alojamento especial para estrangeiros. É isso mesmo: enquanto os indianos se enfileiram no chão para conseguir um teto, os estrangeiros ganham um quarto com várias camas grudadas uma na outra, com cobertores à disposição. É uma acomodação simples, mas muito organizada e que te proporciona tudo que você poderia precisar.
Dica: o prédio do alojamento fica mais no início da rua, ainda antes de chegar ao Golden Temple. Se você não chegar com o ônibus que os sikhs disponibilizam, é provável que entre no templo por outro portão, do outro lado do complexo (entrando diretamente de frente para o templo). Para encontrar o alojamento, dê a volta no templo e saia pelo lugar oposto de onde entrou.

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A muvuca: imagina a emoção de dormir aí? Calma, estrangeiro tem um quartinho especial…

A comida. Depois de ter um teto e uma cama para passar a noite, a barriga começa a roncar e a curiosidade pela comida fala mais alto (afinal, milhares de pessoas se alimentam lá por dia, ininterruptamente, e a organização desse processo precisa ser muito sistemática para que funcione!). Entro no complexo do templo, tirando os sapatos, que são guardados em um armário por um dos voluntários sikhs. Passo por uma pequena “piscininha” onde os pés são limpos, e enxergo o templo. É grande, é dourado, é muito especial. Fotos do templo, fotos com os guardas sikhs (que inflam o peito e amam posar ao lado dos turistas), uma breve exploração ao redor, decido ir comer para, na volta, quando escurecer, poder olhar o tempo à noite.
A organização da cozinha é incrível: chegando nessa área, se observa centenas de voluntários lavando pratos, descascando vegetais, cozinhando em panelas enormes. Pego meu prato e entro na fila.

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Arroz, chapati, dhal, sabji de legumes e arroz de leite de sobremesa no potinho.

É difícil explicar a forma como a distribuição da comida funciona. Você senta no chão, em um lugar pré-estabelecido, enfileirado com as outras pessoas que querem comer. Os voluntários começam a chegar, cada um com um balde diferente: um leva o dhal (sopa de grãos), outro os legumes, outro entrega o chapati (pão indiano), e a comida vai sendo colocada no seu prato. Se você quer repetir, tem que ser rápido para pedir mais: depois de algum tempo, os voluntários deixam de circular pelo setor onde você está sentado e passam para o próximo.

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Todo mundo sentado, comendo ou esperando que o balde com a comida chegue no seu prato

Tanto no alojamento quanto no complexo do Golden Temple, existem publicações em inglês que informam sobre o sikhismo. São materiais gratuitos e bastante interessantes, além de muito informativos para quem nunca teve contato com a religião. Enquanto você passeia pelo complexo, é bem possível que algum indiano se aproxime de você para perguntar sobre sua experiência e saber se você tem alguma dúvida sobre a religião que ele possa responder. Todos estão realmente querendo que sua experiência seja positiva – talvez por isso tenha me sentido tão acolhida em todos os momentos.

Durante dois dias, vivi pela solidariedade dos sikhs, sem precisar gastar absolutamente nada. Comi três refeições ao dia gratuitas e fui muito bem alimentada, obrigada (claro, não pode se importar com comer feijão no café da manhã…). Dormi quentinha em um alojamento onde sentia que os voluntários realmente se importavam comigo e com o meu conforto. Apesar de simples, nada faltava na acomodação: meu banho de balde foi com água quente, e os banheiros (estilo oriental, de agachar) eram limpos e coletivos. Ao ir embora, você pode doar algum valor por todos os serviços que recebeu. Ninguém vai te pedir e nem olhar se você o fez. Não é uma estadia luxuosa, e se você pode e quer pagar, existem diversos outros albergues e hotéis na cidade. Mas uma experiência como essa – de contato direto com pessoas e com a forma instituída de uma religião e seu funcionamento em um país – é única!

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