Viajando no Nepal: crise, pós terremoto e inverno

Dezembro de 2015 em Rishikesh, na Índia. Começava a me preparar para deixar a Índia e seguir rumo, por terra, ao Nepal. As informações que chegavam aos meus ouvidos sobre a situação do país pós terremoto (ocorrido em abril do mesmo ano) eram divergentes, então eu decidi que iria checar com meus próprios olhos. No quarto ao lado do meu, um casal de Colombianos tinha o mesmo plano, mas ainda um tanto quanto indecisos: a crise de combustível estava dificultando muito o trânsito no país, diziam eles. Nem sabiam se havia como chegar da fronteira até as principais cidades.

Não era a primeira vez que ouvia sobre a crise. O governo nepalês aprovou uma nova constituição – que de acordo com os indianos, era prejudicial para eles. Em setembro de 2015, a Índia deixou de enviar combustível pela fronteira, e o Nepal, que depende fortemente do país vizinho para ter combustível, não tinha outra solução além de resistir.

Diferentemente do casal no quarto ao lado, fui mesmo assim, consciente de que precisaria ter paciência e, mais do que nunca, estar preparada para desmontar meus planos caso necessário. Cruzei a fronteira com tranquilidade. Meu próximo destino era Chitwan, onde pretendia voluntariar em uma fazenda orgânica por alguns dias. Duas da tarde comecei a procurar por um ônibus, mas o último já havia saído (com menos ônibus operando devido à crise, os ônibus são mais frequentes para cidades grandes como Pokhara ou Catmandu, onde há mais demanda). Precisaria pegar outro ônibus que leva até a metade do caminho e então trocar. Prevendo um dia longo e um tanto quanto divertida pelo cenário ao meu redor (mesmo com o ônibus lotado – estilo Nepal, ou seja, com gente sentada até no teto – as pessoas sorriam para mim, a única estrangeira, e se animavam com a música tradicional nepalesa que tocava – ou melhor, gritava – de fundo), sentei e entreguei para seja-lá-o-que-for-acontecer-nem-sei-onde-vou-parar.

A verdade é que esse é um momento dramático para o país, não apenas pela crise de combustível: o turismo diminuiu muito pós terremoto, o povo ainda não foi realojado e muitas famílias se preparavam para um inverno frio e sem um lugar para morar, se reacomodando em barracas quando possível. Todo o dinheiro de doações feitas pelo mundo inteiro (bilhões de dólares) AINDA não havia sido repassado pelo governo para a população por “questões burocráticas” (era isso que todos me diziam quando eu questionava o motivo), e em janeiro de 2016, pouco após minha viagem, as primeiras barracas doadas foram repassadas às famílias desalojadas após a pressão do povo. A crise de combustível não afetava tanto os turistas além de requerer mais paciência na espera por meios de transporte, sendo fácil fechar os olhos para a realidade das famílias ao redor, que era bem mais dramática. Mas restaurantes paravam de funcionar porque a comida havia acabado; taxistas e motoristas de tuktuk quase não encontravam mais trabalho (precisavam ficar horas em filas para conseguir um pouco de combustível, e enquanto os preços subiam, a possibilidade das pessoas pagarem um valor elevado pelo serviço diminuía); famílias passavam a procurar outros meios de cozinhar, fazendo fogueiras na parte de fora de suas casas. Além disso, um corte de eletricidade de mais de 13 horas ocorria diariamente no país inteiro.

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Vilarejo nas redondezas de Nayapul, onde muitos trekkings iniciam

O turismo ainda é possível e o povo ainda precisa do turismo para que a economia continue girando. Fui para lá em um cenário pós terremoto, no meio de uma crise e no início do inverno, quando o turismo diminui ainda mais. Tudo que encontrei foi um país aberto, com pessoas desejando dividir o pouco que tinham. Talvez o turismo tenha se dificultado, talvez não seja uma viagem tão confortável e simples, mas ver a resiliência e a união do povo frente a adversidades tão profundas e de difícil resolução é algo impactante.

Aquela fazenda que eu pretendia ir… acabei nunca chegando lá, pois no ônibus a menina sentada do meu lado me convidou para ir ao vilarejo dela passar uns dias – e esse é o motivo pelo qual viajo: experiências que te obrigam a refletir sobre tudo o que conhecemos como certo, como confortável ou como necessário.

COMO AJUDAR? Doações em dinheiro ou mesmo bens materiais não tem sido efetivas por não alcançarem (ainda) os afetados. Para quem viaja pelo país e têm tempo e vontade de se envolver, diversas organizações locais (como a All Hands) realizam trabalhos para limpar áreas atingidas pelo terremoto e iniciar a reconstrução de casas (assim que obtiverem as permissões exigidas pelo governo). É possível se envolver e conviver com o povo local, atuando diretamente nas suas necessidades.

No momento que esse post foi escrito, em março de 2016, a crise de combustível permanecia.

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